quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

IFA Ciências Humanas Aula 03 e 04

Material com atividade, utilizado nas aulas do Itinerário Formativo  de Aprofundamento (IFA) de Ciências Humanas.

Fonte: Planos de aula do Itinerários Formativos de Aprofundamento (IFAs) das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Governo do Estado do Ceará.


AULAS 3 E 4 VOZES DA CRÍTICA

Texto 1 - Por um Feminismo Afro-Latino-Americano

O processo de industrialização e urbanização do Brasil ocorreu em dois estágios: o capitalismo competitivo e o capitalismo monopolista. O primeiro estágio terminou em meados da década de 1950 e o segundo atingiu seu pico depois de 1968. Os setores conectados com o capitalismo competitivo foram subordinados pelo sistema monopolista hegemônico, cujos tentáculos alcançaram até as regiões mais atrasadas. Esses eventos resultaram na existência de dois mercados de trabalho distintos que exigiam forças de trabalho qualitativamente distintas. 

Esse desenvolvimento desigual combinava e integrava diferentes épocas. Grande parte da população excedente se tornou uma massa marginal sob o sistema monopolista e um exército industrial de reserva para o setor competitivo subordinado. Uma vez que a capacidade de absorver mão de obra manual desse setor é muito baixa, uma massa marginal também existe em relação a ele. Claramente, condições relacionadas ao desemprego e ao subemprego tiveram efeitos especialmente severos sobre esse excedente

populacional.

GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano: Ensaios, Intervenções e Diálogos . Rio Janeiro: Zahar, 2020


Texto 2 - O Negro no Mundo dos Brancos

Todos os que leram Gilberto Freyre sabem qual foi a dupla interação, que se estabelece nas duas direções. Todavia, em nenhum momento essas influências recíprocas mudaram o sentido do processo social. O negro permaneceu senpre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como "igual". Quando se dá a primeira grande revolução social brasileira, na qual esse mundo se desintegra em suas raízes abrindo-se ou rachando-se através de várias fendas, como assinalou Nabuco- nem por isso ele contemplou com equidade as "três raças" e os "mestiços" que nasceram do seu intercruzamento. Ao contrário, para participar desse mundo, o negro e o mulato se viram compelidos a se identificar com o branqueamento psico-social  e moral. Tiveram de sair de sua pele, simulando a condição humana-padrão do mundo dos brancos".

Essa situação constitui, em si mesma, uma terrível provação. Que equilíbrio podem ter o "negro" e o "mulato" se são expostos, por princípio e como condição de rotina, a formas de auto-afirmação que são, ao mesmo tempo, formas de autonegação?

FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. Difusão Europeia do Livro. São Paulo, 1972.


Texto 3 - Colonialidade de ser

Distinta dessa ideia, a colonialidade se refere a um padrão de poder que emergiu como resultado do colonialismo moderno, mas que, ao invés de estar limitado a uma relação formal de poder entre dois povos ou nações, refere-se antes à forma como trabalho, o conhecimento, a autoridade e as relações intersubjetivas se articulam entre si, através do mercado capitalista mundial e da idéia de raça.

MALDONADO-TORRES, Nelson. Sobre a colonialidade do ser: contribuições para o desenvolvimento de um conceito. Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2022.


Texto 4 - Filosofia da libertação

1.1.2. А оopressão da periferia colonial e neocolonial

1.1.2.1. Quando dizemos que a filosofia da libertação é pós-moderna, queremos indicar a  seguinte tese: a filosofia moderna européia, mesmo antes do ego cogito, mas certamente a partir dele, situa todos os homens, todas as culturas, e com isso suas mulheres e filhos, dentro de suas próprias fronteiras como úteis manipuláveis, instrumentos. A ontologia os situa como entes interpretáveis, como idéias conhecidas, como mediações ou possibilidades internas ao horizonte da compreensão do ser. Espacialmente centro, o ego cogito constitui a periferia e se pergunta com Fernández de Oviedo: "Os índios são homens?", isto é, são europeus e por isso animais racionais? O menos importante foi a resposta teórica; quanto à resposta prática, que é a real, ainda continuamos a sofrer: são apenas a mão-de-obra, se não irracionais, ao menos "bestiais", incultos - porque não têm a cultura do centro -, selvagens... subdesenvolvidos.

1.1.2.2. Esta ontologia não surge do nada. Surge de uma experiência anterior de dominação sobre os outros homens, de opressão cultural sobre outros mundos. Antes do ego cogito existe o ego conquiro (o "eu conquisto" é o fundamento prático do "eu penso"). O centro se impôs sobre a periferia há cinco séculos. Mas, até quando? Não terá chegado ao seu fim a preponderância geopolítica do centro? Podemos vislumbrar um processo de libertação crescente do homem da periferia?

DUSSEL, Enrique. Filosofia da Libertação: crítica à ideologia da exclusão. São Paulo: Paulus, 1995.


Texto 5 - Pele negra, máscaras brancas

Enquanto o negro estiver em casa não precisará, salvo por ocasião de pequenas lutas intestinas, confirmar seu ser diante de um outro. Claro, bem que existe o momento de “ser para-o-outro”, de que fala Hegel, mas qualquer ontologia torna-se irrealizável em uma sociedade colonizada e civilizada. Parece que este fato não reteve suficientemente a atenção daqueles que escreveram sobre a questão colonial. Há, na Weltanschauung de um povo colonizado, uma impureza, uma tara que proíbe qualquer explicação ontológica. Pode-se contestar, argumentando que o mesmo pode acontecer a qualquer indivíduo, mas, na verdade, está se mascarando um problema fundamental. A ontologia, quando se admitir de uma vez por todas que ela deixa de lado a existência, não nos permite compreender o ser do negro. Pois o negro não tem mais de ser negro, mas sê-lo diante do branco. Alguns meterão na cabeça que devem nos lembrar que a situação tem um duplo sentido. Respondemos que não é verdade. Aos olhos do branco, o negro não tem resistência ontológica. De um dia para o outro, os pretos tiveram de se situar diante de dois sistemas de referência. Sua metafísica ou, menos pretensiosamente, seus costumes e instâncias de referência foram abolidos porque estavam em contradição com uma civilização que não conheciam e que lhes foi imposta.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.


Atividade

Texto 1 - Segundo o texto, como o processo de industrialização no Brasil contribuiu para o aumento do desemprego e do subemprego, e por que esses problemas atingiram de forma mais intensa parte da população?

Texto 2 - De acordo com o autor, por que o negro e o mulato precisaram se adaptar aos padrões do “mundo dos brancos” para serem aceitos na sociedade brasileira? Quais consequências isso trouxe para a construção de sua identidade?

Texto 3 - Explique, com base no texto, o que significa a ideia de “colonialidade” e como ela continua influenciando as relações sociais e de poder mesmo após o fim do colonialismo.

Texto 4 - Segundo Dussel, como a filosofia europeia colocou os povos colonizados em uma posição de inferioridade? Explique a relação entre dominação, colonização e exclusão desses povos.

Texto 5 - De acordo com Fanon, por que o negro passa a se definir a partir do olhar do branco em uma sociedade colonizada? Como isso afeta sua identidade e sua forma de se ver no mundo?


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