Material com atividade, utilizado nas aulas do Itinerário Formativo de Aprofundamento (IFA) de Ciências Humanas.
Fonte: Planos de aula do Itinerários Formativos de Aprofundamento (IFAs) das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Governo do Estado do Ceará.
IFA CIÊNCIAS HUMANAS AULA 07 E 08
Texto 1: Trecho de “Brasil: uma biografia” de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling
O fato é que muitas características do passado insistem em continuar presentes, retornam e não desaparecem por efeito de decreto ou boa vontade. A miséria se mantém assolando importante parcela da população, e, a despeito dos tantos progressos realizados, continuamos apresentando índices que nos colocam entre os países campeões no quesito desigualdade social. Em muitos lugares, mulheres ganham menos, trabalhando nas mesmas funções que seus colegas do sexo masculino, e continuam altos os índices de “crimes da paixão”, eufemismo para definir as práticas violentas que ainda marcam as diferenças de gênero no país. [...] Negros, morenos e pardos — seja lá o nome que se quiser dar —, apesar da aplicação de novas políticas de ação afirmativa, ainda conhecem a realidade da discriminação racial expressa nos índices diversos no trabalho e na educação, nas taxas de mortalidade, de criminalização na justiça, e até mesmo no lazer. As chances continuam desiguais [...].
SCHWARCZ, Lilia M; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 506-507.
Texto 2: A situação do negro escravo no Brasil-Colônia
No início da colonização, a mão de obra utilizada era majoritariamente de indígenas escravizados, porém, com o tempo, por uma série de motivos, os escravizados africanos passaram a ser preferidos pelos donos das plantações e engenhos; Consequentemente, a migração forçada de africanos para o território brasileiro deveu-se à demanda de mão de obra para a agricultura de exportação e a extração de minérios; Moura (1992, p. 15-18) afirma que o negro escravo no Brasil-Colônia "vivia como se fosse um animal" e que a disciplina de trabalho que lhe era imposta "baseava-se na violência contra a sua pessoa"; Mesmo com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, os negros foram inseridos na sociedade como cidadãos de segunda classe.
MOURA, Clóvis. História do negro brasileiro. 2. ed. São Paulo: Ática, 1992.
Texto 3: A condição da mulher no Brasil-Colônia
A situação das mulheres no Brasil colonial era profundamente marcada pelo patriarcado escravocrata, mas assumia formas diferentes para mulheres negras e brancas. A mulher branca (da camada senhorial): Vivia na família patriarcal, sob autoridade absoluta do pai e, depois, do marido. Sua “carreira” social quase única era o casamento; a alternativa era o convento, muitas vezes decidido pelo pai ou pelo marido como forma de controlar sua sexualidade. A mulher negra (escravizada): Era, antes de tudo, escrava: considerada “coisa”,
instrumento de trabalho, sem direitos, vendida, alugada, castigada. Sofria uma exploração tripla: como trabalhadora, como objeto sexual do senhor e como reprodutora de força de trabalho.
SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. Petrópolis: ozes, 1976.
Interseccionalidade: conceito e aplicação social
Interseccionalidade é um conceito das ciências sociais que busca explicar como diferentes formas de desigualdade e opressão atuam de maneira simultânea e interligada na vida das pessoas. Em vez de analisar separadamente fatores como raça, classe social, gênero, sexualidade ou território, a interseccionalidade propõe compreendê-los como dimensões que se cruzam e produzem experiências sociais específicas.
O conceito foi sistematizado pela jurista e intelectual Kimberlé Crenshaw, ao analisar como mulheres negras enfrentavam formas de discriminação que não podiam ser explicadas apenas pelo racismo ou apenas pelo machismo. A partir disso, a interseccionalidade passou a ser utilizada para compreender como estruturas históricas de poder produzem desigualdades complexas e persistentes.
No contexto brasileiro, a interseccionalidade é fundamental para entender as desigualdades sociais, pois o país foi historicamente marcado pela escravidão, pela colonialidade e pela ocupação racializada do território. Esses processos estruturaram hierarquias sociais que ainda se refletem nos indicadores de renda, escolaridade, acesso à saúde, moradia e oportunidades de trabalho.
Por exemplo, pessoas negras, especialmente mulheres negras e moradores de periferias, tendem a ocupar posições sociais mais vulneráveis. Isso não ocorre por acaso ou por escolhas individuais, mas porque diferentes marcadores sociais se combinam, limitando o acesso a direitos e ampliando situações de exclusão.
A interseccionalidade também contribui para o debate educacional, pois permite analisar como desigualdades de raça, classe e gênero afetam o acesso, a permanência e o sucesso escolar. Dessa forma, o conceito ajuda a pensar políticas públicas mais justas e ações pedagógicas que reconheçam a diversidade das experiências sociais.
Em síntese, compreender a interseccionalidade significa reconhecer que as desigualdades são historicamente construídas, estruturais e interligadas, exigindo análises e soluções que considerem essa complexidade.
ATIVIDADE
1. Sobre a herança do passado (Texto 1)
De acordo com o primeiro texto, por que não podemos dizer que o Brasil deixou todos os seus problemas antigos para trás? Dê um exemplo de um problema do passado que ainda vemos hoje.
2. Sobre a vida do escravizado (Texto 2)
O historiador Clóvis Moura diz que o negro escravizado vivia "como se fosse um animal". Explique o que ele quis dizer com isso, considerando como era a rotina de trabalho e o tratamento dado a essas pessoas.
3. Sobre as diferenças entre mulheres (Texto 3)
O texto de Heleieth Saffioti mostra que a vida da mulher branca e da mulher negra no Brasil Colônia era bem diferente. Quais eram as principais dificuldades vividas pela mulher negra que a mulher branca não passava?
4. Sobre o conceito de Interseccionalidade (Texto 4) O que significa o conceito de interseccionalidade? Tente explicar com suas palavras como diferentes preconceitos (como raça e gênero) podem se somar na vida de uma pessoa.
5. Sobre a realidade das periferias (Texto 4)
Por que o texto afirma que as mulheres negras moradoras de periferias estão em uma posição mais "vulnerável"? Isso acontece por escolha delas ou por causa da história do país? Justifique.